terça-feira, 27 de setembro de 2011

Expedição ao Centro do Paraná






Que o Brasil é um país novo, continental, cheio de potencialidades, todos já estão cansados de saber. Mas entre saber isso da televisão, de livros, e o conhecer dos grotões não explorados há uma enorme distância. As aulas de história vêm à cabeça: o Brasil ainda está sendo colonizado.

Saindo da região superpopulosa da faixa litorânea do território nacional, começamos encontrar uma vastidão de terras inabitadas. E não falo dos territórios amazônicos. Falo do centro de um estado no sul do Brasil, a mesoregião centro-oeste do Paraná. Ali é possível observar ao vivo e em cores a dinâmica de formação do território

nacional: a entrada da cultura, do capital, da lógica do mundo ocidental em uma imensidão amorfa, dispersa.

A energia do movimento colonizador - ainda que intensa no golpe - é insuficiente para colocar em movimento o gigantismo do interior brasileiro. Essa é uma empreitada que somente os estados nacionais tem condições de empreender e que, de certa maneira, já acontece disfarçada entre ações ainda não bem coordenadas entre Federação, Estados e Municípios. A longo prazo existe um grande potencial econômica, mas que nenhuma empresa capitalista teria condições viabilizar sozinha em poucos anos.

Falemos de maneira mais prática. Essa mesoregião do Paraná, assim como muitas outras regiões brasileira já tem na produção da soja o estado da arte mundial posto em prática. Mas repete os mesmos erros da produção açucareira no século XVI e XVII, da produção cafeeira dos séculos XIX e começo do XX: totalmente integrada com o comércio internacional, totalmente separada do meio social cultural econômico da região em que são produzidas.


Toda essa soja produzida vai crua para fora. A soja não faz parte da culinária nacional, não existem pratos típicos, não é processada aqui. Quando comparamos a cultura do trigo com a da soja, percebemos o quão discrepantes elas são. Aí caberia aos brasileiros perceber que a soja pode ser o trigo do novo milênio, poderíamos desenvolver toda um indústria em cima dele, produzir receitas, fazer cerveja de soja. Isso se ficarmos limitados à soja, mas quantas mais culturas poderíamos desenvolver no vastos campos do interior do Brasil?

Saindo do terreno agrícola, existe o potencial turístico. É um pontecial, mas que está muito longe de ser aproveitado. Foz Iguaçu desvia uma parcela do fluxo turístico brasileiro, mas carece de estar integrado a uma rede: o turista que vai a Foz Iguaçu para ver as cataratas, poderia ser direcionado para o interior do estado. Há belas passaigens, possibilidade de roteiros ecológicos, rallys, hotéis-fazenda, rafting, outros esportes radicais, turismo gastronômico (isso se houvesse culinária típica).

Podíamos ainda falar das enormes quantidades de energia renovável, hidroelétrica, eólica; falar do aquífero guarani...

Tudo isso é o potencial. Poderíamos ser uns EUA em termos econômicos. Mas somos o Brasil porque uma região com o potencial como a Centro-oeste Paranaense é justamente aquela que ostenta um dos piores indicadores sócio-econômicos do Sul, compatível com as regiões pobres de todo resto do Brasil. Tudo está para ser feito lá, não há escolas, não há população, o estado brasileiro começa a atingir essa região apenas nas últimas décadas. Há um vasta planalto a ser desbravado, a ser colonizado.

O Brasil pode ser o país do futuro. Com muita imaginação dá para imaginar um país, uma potência do hemisfério sul. Mas para transformar a atual realidade nessas quimeras engendradas pela imaginação há a necessidade de uma dose gigante de trabalho, energia. Coisa que um século de trabalho intenso talvez resolvam.

Não adianta apressar o passo, como alguns políticos querem fazer. O que precisamos é de projetos estratégicos de longo prazo para o Brasil. Uma passo por vez, de maneira sustentada, construindo uma instituição por vez, de maneira organizada. Hoje em dia temos o dinheiro público despejado de maneira atabalhoada por essas regiões. O acerto dessas políticas está em reconhecer a necessidade de se investir no interior do Brasil. O erro está na estratégia de espalhar os recursos sem ordenamento, sem nenhuma lógica de estado. Essa estratégia segue a velha lógica da colonização portguesa “em se plantando, tudo se colhe”. Mentira. O que essa política produziu foram séculos de subdesenvolvimento do Brasil.

O dia que começarmos a pensarmos um pouco mais a longo prazo, arrumar os erros estruturais brasileiros com seriedade (educação, transportes, violência, sistema jurídico), daí sim estaremos criando as condições de crescimento de longo prazo. Só assim poderemos ser de fato essa potência do hemisfério Sul de que falam alguns presidentes, the economists da vida e outros. Sejamos realistas.

Mais fotos:

sábado, 10 de setembro de 2011

Os céus de Curitiba

Tá no Brasil, mas não é bem Brasil e não é bem assim Europa. O fato é que o céu pode ser qualquer coisa de britânico às vezes. Proporcionou ontem um espetáculo de cores em diversos atos. O dia começou conturbado. Não sabia se chovia fino, garoa fria, ou se chovia forte, gotas gordas. Mas provavelmente ficou num nublado indeciso. Na tarde, foi absoluto: foi cinza.

Então veio o céu do final de tarde como uma surpresa para todo sul do Brasil. Um vermelho aroseado que talvez só Van Gogh soubesse pintar.

Acompanhado de músicas veio a noite. Dela se fez o que se devia e se cabia, pouco do que se sabia mas um tanto do que se podia. A luz amarela dos postes, quase um vermelho gasoso, com a neblina branca fez o habitual laranja da noite Curitibana.

Na madrugada a neblina venceu. Dominou não só o céu, como desceu à terra. E o resultado foi uma imersão em algodão. Um branco que a tudo engolia, escondia os mais altos pinheiros, disfarçava os robustos prédios e os seres erráticos confundia. Mais forte que a fog londrina ou que as brumas de Avalon.

Depois de tudo isso, veio um outro tipo de vermelho, o da aurora, com tons profundos de marrom. Prenúncio de um novo dia, esse azul, mais ao gosto brasileiro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A arte de viajar

Paul Cézanne

Já dizia o ditado que o melhor da festa é o antes. Às viagens também cabe raciocínio análogo. Pouco mais de um mês do embarque para França, estou naquela gostosa etapa de planejar, pesquisar, imaginar minha viagem. Foi nesse trabalho que me veio às mãos esse A arte de viajar, de Alain Botton. Mais que um guia de viagem, ele é um pequeno ensaio sobre como enxergarmos o mundo.

Professor, escritor, filósofo, o suíço radicado em Londres Alain Botton traz relatos de diferentes viajantes na história recente e as compara com as impressões subjetivas do autor em suas próprias viagens. Uma discussão permeia a obra: a diferença entre a apreensão da realidade pelo artista, pelo viajante e pelo local. Recorrendo a filósofos como Pascal e Nietzsche, Botton relembra da infinita complexidade da realidade e a impossibilidade da sua completa apreensão pelo ser humano. Cada um dos três – o artista, o viajante e o local - busca elementos diferentes na realidade. A mensagem do livro parece ser que viagens, no fim das contas, são para descobrir o que vai dentro de nós mais do que vai fora.

Mesmo que autor tenha esmiuçado como e porque invariavelmente encontramos decepções em destinos que esperávamos promessas de paraíso, o fascínio que o distante exerce sobre o ser humano é uma força imanente. Por mais que nosso racional tente antecipar e calcular com exatidão as circunstâncias da viagem futura; por mais que nos cerquemos de todos relatos e informações sobre o destino, sempre fica uma pontinha de esperança, uma porcentagem mínima, mais possível, de que lá ainda é possível o paraíso que aqui já se mostrou decaído.

Talvez a felicidade seja essa mesma de vagar, sempre alimentar esperanças, sabidas pela razão quimeras, mas necessárias ao coração. Assim, a frase que escolheria do livro, não seria alguma de Buttom – ainda que o estilo do autor fosse até profícuo no cunhar boas passagens. Seria de Baudelaire:


Vagão, leva-me contigo!

Navio, carrega-me daqui!

Leva-me para longe, bem longe.

Aqui a lama

é feita das nossas lágrimas!



Claude Monet


O artista e o viajante são no fundo a mesma pessoa e aspiram ambos às mesmas coisas. É o sonhador do Dostoiévski: vê o muro e pensa, o que há depois dele? Vê a realidade e pensa, é possível outra? O artista inventa um novo mundo. O viajante tenta descobrir um outro mundo. Ambos fogem da lama local, feita de nossas lágrimas.


Mas, para deixar o post mais divertido, vão aqui algumas perólas reunidas no livro:


Huysmans relata que o Duc des Esseintes morava sozinho numa grande vila nos arrebaldes de Paris. Ele raramente saía, para evitar o que chamava de feiúra e estupidez de outras pessoas.


Revolta-me estar de volta a este país maldito onde se vê o Sol no céu quase tantas vezes quanto se vê um diamante na bunda de um porco.

Flaubert, reclamando da França (Normandia, para ser justo)


Na primavera de 1790, um francês de vinte e sete anos, Xavier de Maistre, empreendeu uma viagem pelo próprio quarto, tendo mais tarde dado o seguinte título ao relato do que havia visto: Viagem pelo meu quarto. Satisfeito com suas experiências, em 1798 De Maistre empreendeu uma segunda viagem. Dessa vez, ele viajou à noite e se aventurou a chegar até o peitoral da janela, dando mais tarde o seguinte título a seu relato: Expedição noturna pelo meu quarto.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O ABC do IFPR

Desde o meu ingresso no IFPR, em agosto de 2010, a incompreensão, a impotência e a angústia, foram os mais fiéis companheiros de trabalho. Na minha carreira profissional/acadêmica sempre valorizei a competência, o trabalho duro e a crença de que sempre podemos e devemos fazer melhor. Desde o começo tentei fazer o meu melhor aqui, mas as dificuldades foram muitas. Não sei se era simplesmente ignorado, não ouvido. Mas sei que da falta de um diálogo razoável resultou o sentimento de incompreensão.

A impotência foi constatada quase que concomitantemente. É normal as pessoas terem concepções diferentes. Calculei eu que, vendo os resultados do meu trabalho, um diálogo, em bases mais elevadas, poderia surgir. Foi quando percebi a ausência de meios e poderes para agir. Impotência. Privado do diálogo e do trabalho – elementos básicos do ser na condição humana – adveio, então, a angústia. A solidão na multidão.

De certa maneira, pode-se dizer que a campanha eleitoral começou em janeiro. A gestão, depois de um rápido concílio, já anunciava quem seria o seu candidato a reitor. E eu, ali naquela prisão insular de trabalho, não dei muito importância. Estava mais preocupado com minha angústia. Veio então uma voz insurgente, praticamente um grito sufocado. Não gosto da imagem por deveras piegas, mas esse grito reascendeu as esperanças.


Aos poucos, fui percebendo que mais pessoas estavam na mesma situação minha. A incompreensão foi desaparecendo. Havia colegas para conversar, para o diálogo. Então voltei a trabalhar e poder expressar meus pontos de vistas. Em um desses pontos de vista, apresento um ABC analisando a presente gestão do IFPR.

E já me adianto. Não é imparcial. É totalmente parcial. Afinal, a política é o campo em que a opinião engendra a ação subjetiva e, a última, tem reflexos coletivos. Quem não concordar, convido com intuito de esmiuçar ponto a ponto. A política também é arte de estabelecer consensos.



A – Autoritarismo

No autoritarismo, os superiores não ouvem os inferiores e centralizam as decisões e as informações. Os de cima determinam e os de baixo apenas executam. Brinca-se que no IFPR há os pensadores e a há os executores. O autoritarismo é sempre um movimento de anulação da individualidade dos inferiores. No fundo, sempre há uma fraqueza (moral, intelectual, técnica) dos superiores autoritários, os quais lançam mão de um poder externo para sustentar a relação de dominação. Superiores não autoritários são aqueles que conseguem a convergência voluntária e consciente dos inferiores. Os últimos não se vêem anulados, mas sim complementados, inseridos em uma lógica superior.

B – Burocracia

O IFPR está muito longe do ideal de uma organização burocrática. Weber definia a burocracia como a forma de poder em que a racionalidade (a técnica) impera e justamete por isso, ela seria a mais indicada para a gestão da coisa pública. Decisões balizadas pela racionalidade, embasadas em dados, estudos científicos são ainda um sonho no IFPR. Isso dá dimensão do nosso atraso, pois não conseguimos nem mesmo aplicar um modelo de organização que já está superado. Isso quando deveríamos nascer já como uma instituição modelo para o século XXI.

C – Comunicação

Os bancos da faculdade de jornalismo ensinaram-me que comunicar é tornar algo comum. Nas organizações, a comunicação tem dois momentos, um interno e outro externo. Para a análise interna da comunicação, ver os verbetes Transparência e Zumbidos. Externamente, o IFPR tem um deficiência grave comunicativa. Para constatar tal deficiência, precisamos simplesmente sair perguntando para as pessoas na rua quem sabe o que é o IFPR. Não vale conhecer a UFPR, UTFPR. Afinal, somos ou não a mesma coisa?

D – Democracia

A arte de criticar não é exercida em nenhuma âmbito do instituto. Definitivamente a democracia não é um sistema fácil de aplicar. Exige pessoas extremamentes conscientes, comprometidas e que respeitem a opinião alheia. Mas sem nenhuma dúvida, é ainda o melhor sistema de poder que humanidade já produziu. Alguém precisa avisar a presente gestão dessa novidade administrativa inventada por uns gregos aí.

E – Expansão

Feita de maneira desorganizada, não planejada e sem nenhum compromisso com a qualidade. Onde está a previsão de chegar a 15 campi no PDI? Mas dá para entender o sentido que a gestão vê nessa expansão. Ela atende à lógica do governo fazer estatísticas sobre a educação. E como a gestão está umbilicalmente ligada com pessoas passageiras no governo (e não necessariamente com Estado brasileiro), não questiona essas políticas, pois do contrário alguém poderia perder alguma boquinha no governo. Onde está o nosso ex-reitor? Onde estavam os candidatos a reitor antes?

F – Fisiologismo

Um dos mais graves problemas da administração pública brasileira tem um capítulo especial no IFPR. As escolhas aqui parecem ser feitas em base de relações pessoais, em interesses particulares, tudo no famoso tomacádálá.

G – Globalização

A presente gestão simplesmente parece que não vive no século XXI. O IFPR está à margem de qualquer parâmetro internacional de educação. Quantos alunos, professores, técnicos nossos estão no exterior? Quantos estrangeiros recebemos por ano?

H – Hipopotismo

O Fenômeno terminou a carreira em parte pelo problema de hipotiroidismo. Recebeu até mesmo uma maldosa alcunha de Gordômeno. Estava muito “grande” para poder executar seus movimentos com qualidade. Qualquer semelhança com o IFPR, é uma mera coincidência.

I – Incompetência

A incompetência advém como resultado da aplicação de certos valores (letras A, F, P, X) e pela ausência de outros (B, C, D, G, K, L, M, Q, T, U, V)

J – Justiça

Esse não é um valor que deve ser exclusivo do poder judiciário. A senso de justiça é um dos principais fatores que estão ligado ao bom desempenho e à motivação de funcionários. As regras devem ser claras para as punições e para as premiações. Se alguns se dão bem sem motivos claros para isso, não temos justiça e, portanto, temos um fator de desmotivação e improdutividade.

K – Know/how

A expressão inglesa traz dois dos três elementos necessários para a competência, definida como a junção dos saberes teóricos, práticos e das atitudes do indivíduo (conhecimentos, habilidades e atitudes). Nenhum deles sozinho é suficiente para termos a competência. Know/how, sem um compromisso ético por exemplo, é incompleto e pode ser tão ou mais perigoso para a vida organizacional quanto indivíduos com atitudes corretas mas com carências nos outros saberes. Pensemos: que tipo de gestão por competência temos no IFPR? Os professores ministram aulas nas suas áreas de competência, os gestores são escolhidos dentro do seus meios de atuação?

L – Liderança

É o problema mais grave da presente gestão, em todos os níveis organizacionais. O IFPR vive uma verdadeira crise generalizada de liderança, justamente em uma fase crítica de sua vida, em que a cultura organizacional ainda está em processo de consolidação. Nesse momento, as lideranças têm uma influência muito maior do que teriam em organizações já maduras. Daí a importância capital desse processo de eleição. Ainda é tempo de corrigir o rumo que o instituto tem tomado. É necessário uma mudança forte para iniciar a consolidação de uma nova cultura, da excelência do ensino, da qualidade, da competência. Ainda temos a chance de criar uma instituição do século XXI. No entanto, se o reitor eleito reforçar a cultura organizacional em voga, o IFPR estará entrando um círculo vicioso: lideranças sendo criadas dentro de uma cultura não de resultados e que posteriormente a reforçam. A cultura organizacional depois de consolidada é difícil mudança. Uma decisão errada nessa fase delicada da vida institucional irá ter graves consequências, pois poderemos perder a oportunidade histórica de criar uma instituição referência, com uma gestão do século XXI.

M – motivação

Para que motivar se é mais fácil mandar?

N – Natureza

Parece que a consciência de todos fica satisfeita somente com a criação de um curso de agroecologia. Isso seria suficiente. Todos os outros setores poderíam imprimir folhas à vontade, por exemplo. Nossos prédios (quer dizer, alguns não são bem nossos posto que alugados) tem projetos sustentáveis de reaproveitamento de água, economia energética? Que exemplos passamos para nossos alunos nessa área?

O – Organização

Bom senso é o melhor guia para a organização. Não é necessária nenhuma faculdade de administração para conhecê-la e praticâ-la. Portanto, qualquer pessoa pode dizer se o IFPR é ou não organizado.

P – Personalismo

Diz a lei que o IFPR deveria ser algo público, impessoal. Mas quando há setores que só podem ser designados pela pessoa que o ocupa, algo anda no mínimo mal. Isso sem falar na relação quase paternal (ou seria patriarcal) que muitos tem com o IFPR. Os historiadores podem dizer melhor do que eu em que período encontramos ótimos exemplos desse tipo de relação na gestão pública.

Q – Qualidade

Eis aí uma palavrinha que dá pano para manga. Mas ao contrário do que vemos no senso comum, é possível sim discutir qualidade em bases minimamente científica, sem confundir qualidade de gestão com gosto particular. Qualidade na gestão é padronização de serviços, pesquisa das melhores práticas em um setor específico (o famoso benchmarking), elaboração de índices. Na educação, qualidade quer dizer formar cidadões e profissionais críticos, participativos, competentes.

R – Rabo preso

Eu não tenho. Você tem?

S – Sucessão

Alguém acredita que com toda alta cúpula apoiando um determinado candidato, haverá as mudanças que são urgentes para o IFPR? Como falava no verbete sobre liderança, é muito difícil que um candidato lançado no seio da cúpula da atual gestão possa representar mudança. É um contrasenso, para não dizer uma ofensa a inteligência das pessoas. A atual cultura organizacional só existe porque existiram lideranças que até o momento assim a alimentaram.

T – Transparência

Ha mais coisas entre a cúpula da reitoria e o chão de fábrica dos campi que sonha nossa vã filosofia.

U – Unidade

Já havia tocado no assunto em artigo anterior nesse blog. Uma das consequências da falta de planejamento é a dispersão de ações. A falta de unidade. Só não confundamos a unidade fruto do consenso democrático com aquele imposta pela força.

V – Visão

Como fruto do autoritarismo, como falta de planejamento bem feito, nínguem sabe extamente o que somos e para onde iremos. A presente gestão carrega ainda os valores da escola técnica, raciocínia como um órgão intermediário. Não consegue pensar com a audácia que se espera de um órgão federal diretamente relacionado com o desenvolvimento de uma economia que pretende estar entre as quintas maiores em cinquenta anos. Estamos preparados para esse desafio?

W – 5W2H

Uma metodologiazinha de planejamento básica, mas que se fosse aplicada em todas atividades e ações do IFPR já faria uma diferença brutal. Trata-se de se fazer as seguintes perguntas para tudo o que formos fazer: o que? quem? O que? Como? Porque? Quando? Quanto? Ah, isso serve também ajuda na hora de escrever o lead do texto jornalístico.

X – Xenofobia

É o medo do que vem de fora, em oposição ao cosmopolitismo. Estamos mais próximos de qual dos dois extremos?

Y – Yes, sir.

Só para lembrá-los que aqui uns mandam, outros obedecem. (Confesso que não me veio à cabeça nenhum termo melhor)

Z - Zumbidos

É um modo de comunicação muito popular aqui no IFPR.

terça-feira, 1 de março de 2011

Porque planejam os homens

Um homem prevenido - ou planejado, como queiram - vale por dois. Como boa máxima que é, essa frase me esquece a origem no momento. Apostaria, no entanto, em um berço militar. Sim, porque, na possibilidade da arte da guerra ter nos herdado algo positivo, ela seria provavelmente as bases da ciência administrativas atuais. Na história não são poucos os exemplos de exércitos menores subjulgando outros muito maiores. Para ficar na cultura cinematográfica, poderíamos citar a clássica defesa do desfiladeiro das Termópolis, por Leônidas, e outra batalha semelhante - lutada sobre uma ponte estreita – em Stirling envolvendo escoceses e ingleses. O segundo exemplo foi recriado, como uso de toda liberdade poética possível, por Mel Gibson no filme Coração Valente.


O que esses exemplos apenas ilustram é como recursos, no caso homens, podem de fato ter seu emprego multiplicado quando há planejamento. Infelizmente no Brasil o planejamento não é lá algo muito popular. Muitos falam nele, mas poucos de fato estão familiarizados com a sua utilização. O planejamento é visto como momento de especulação abstrata inútil sobre o futuro, como simples perda de tempo. Aqui, a preferência é sempre por ir tocando as atividades e durante a execução corrigir eventuais erros. Nosso grande equívoco. O desperdício gerado pelos ajustes e erros na fase de execução são maiores que o pretenso “desperdício” de tempo da fase de planejamento. Isto é notório em qualquer relação, seja no nível pessoal, seja no social. Não é necessário experiência acadêmica para constatá-lo.


Claro que a descrença do brasileiro no planejamento não é gratuita. Estamos mais acostumados a ver exemplos de planejamentos falhos, pouco ou nada científicos, o que torna-nos ótimos descrentes. Nossa própria historiagrafia oficial prefere uma versão de uma descoberta ao acaso, de Naus “desviadas” de seu curso, a uma versão em que aqui vieram como parte de uma trajeto previamente planejado. Estamos há séculos nesse círculo vicioso: planeja-se mal, executa-se mal, culpa-se o planejamento, desacredita-se o planejamento, planeja-se ainda pior.


Metodologias de planejamento


Planejar é, em essência, a atividade de estabelecer hipóteses e cenários sobre o futuro. Quanto mais consistentes forem eles, melhor será o planejamento. Para construir cenários realísticos, a administração lança mão de diversos recursos, principalmente os de cunho científicos: teorias, metodologias de levantamento e análise de informações, opiniões de especialistas.

De posse desses cenários, começa o trabalho positivo da administração. As hipóteses e cenários são categorizadas de acordo com as probalidades de ocorrência, bem como sobre os impactos que trazem. Analisa-se o meio externo da organização. Analisa-se a disponibilidade de recursos, o atuais e as possibilidades futuras. Chega então o momento da elaboração de preposições positivas, estabelecer a identidade organizacional (missão, valores, visão), objetivos a longo prazo, estratégias, metas, planos táticos, operacionais. Enfim, toda terminologia que todos já viram em algum momento ou outro.

Planejamento no IFPR

A análise dos documentos administrativos mais importantes do IFPR (o Plano de Desenvolvimento Institucional e o Planejamento Institucional 2011) nos fazem refletir sobre como o planejamento tem sido trabalhado e concebido internamente. Todos podem fazer um teste simples para ver se o planejamento é uma realidade dentro do IFPR: o quanto do meu trabalho do dia-dia está previsto em um planejamento maior, estratégico? Quantas horas de trabalho são dedicados a pensar em minhas metas? Eu tenho clareza de como meu trabalho está sendo refletido em uma melhor educação? Meus valores pessoais e opiniões estão de acordo com o que tem sido feito? Acredito que minhas ações são as melhores para o IFPR e para a educação do Brasil?

Confronte suas opiniões com a de seus colegas. Se não houver respostas claras, se houver divergências, há grandes chances do planejamento ter falhas.

O planejamento deve fazer um homem valer por dois, como comentávamos no começo do artigo. Essa mágica é feita através dos famosos alinhamento ou convergência estratégica de recursos. Pessoas atuando na mesma direção, com os mesmo objetivos e compartilhando valores terão resultados mensuráveis, concretos, sempre melhores. Pessoas desalinhadas estrategicamente desperdiçam o esforço e o trabalho em diversas direções. Nínguem vê o fruto concreto do trabalho e o resultado é a frustração de ver o tempo e, portanto, a vida evair-se. Os anos irão passar todos e então lembraremos: o que eu fiz de útil naquele 2011?

As eleições estão aí. É o momento de questionarmos o que queremos do nosso Instituto e assumirmos corajosamente nossas opiniões.

Nota: O IFPR, onde trabalho, está em período de campanha eleitoral para a escolha do novo reitor

terça-feira, 1 de junho de 2010

O nosso democrático Estado

Espanto e, principalmente, tristeza são o que sobressai de mais uma rodada de diálogo entre Estado e sociedade em Florianópolis sobre o transporte público da capital. As cenas repetidas todos anos, de estudantes, jornalistas, tolhidos pela violência policial do direito de opinião, são sintomas inconfundíveis de que algo ainda anda muito mal em nossa sociedade. Não falo especificamente da passagem mais cara do Brasil, mas de problemas mais profundos.

Qualquer pessoa que mora em cidades com mais de 300 mil habitantes já sente na pele dois flagelos desse Brasil do terceiro milênio: violência e transporte urbano. Sob diversas faces – assaltos, má educação das pessoas, intolerância, truculência policial – a violência já é algo que há décadas incomoda o país. Não convém entrar em detalhes, posto que o assunto é, por si, autoexplicativo.

A questão do deslocamento urbano é tema urgente. Completamos meio século de indústria automobilística instalada em nosso país. Juntamente com políticas equivocadas, como descaso com transporte público, reduções de IPI, financiamento privado destinado a compra do carro próprio, chegou-se a um ponto de colapso do transporte dentro das grandes cidades. Engarrafamentos são deseconômicos sob todos pontos de vista, poluidores, e verdadeiros estorvos para quem dirige.

Não sei se a população de Florianópolis está atenta para ambos problemas. Mas parte da juventude manezinha demonstra, no entanto, desde 2003, ter percebido a conexão entre o gargalo econômico social do transporte e a evidente solução, investimento em transporte público eficaz e eficiente. Por isso, desde daquele ano vem se manifestando com menos ou mais força contra decisões públicas que apenas pioram os problemas.

Eis então que releva-se um outro problema muito mais grave. Demonstrando total ignorância, ou puro desrespeito, aos processos democráticos de diálogo social, o Estado Catarinense sistematicamente sufoca as manifestações com a elite militar que tem à disposição, as tropas do GRT (o BOPE de SC). Desproporção de força é pimenta nos olhos dos estudantes, com o perdão do mau gosto do trocadilho. Maliciosamente, confundem-se cidadãos em pleno gozo de seus direitos políticos com criminosos e baderneiros. Como somos um país violento, anestesiados, perdemos lentamente o juízo e a noção do que seja uma discussão social pacífica e democrática. Social ainda é caso de polícia.

Mas o Estado não se equivoca assim sem fortes motivos. A chave da explicação passa por Raymundo Faoro, um quase catarinense de Vacaria e que tive a felicidade lê-lo na biblioteca da Udesc, local que assistiu de camarote a ação do GRT nesse mês. No clássico Os donos do Poder, Faoro retomava o conceito de Weber sobre o estado patrimonial para explicar a política brasileira. Herança lusitana, o estado patrimonial é aquele em que uma minoria social domina o estado.

Ingênuamente, pensava que a evolução do estado brasileiro e a nossa “pujante” economia democrática tornariam tal explicação teórica cada vez mais desnecessária. Ledo e triste engano. Santa Catarina é o exemplo vivo de como o estamento político, famílias Bornhausen, Amim, Berger, se apropriam do estado e assim o utilizam contra os interesses antagônicos, mesmo quando os últimos são legítimamente populares. Só não vê quem não quer. Em nome de um situação favorável a uma elite política, retira-se violentamente do povo dois direitos de um só vez: o de opinião e de livre deslocamento pelas cidades.

Não sei se sou pessimista. Admiro amigos meus que nesse certame público já levaram bala de borracha, pimenta no olho, foram presos. Mas nessas horas fico muito descrente com um final feliz para a história. Penso que a solução passaria para uma discussão nacional, fugindo da arena política viciada dessa minha querida Santa Catarina. Mas ao mesmo tempo, temo que tal estrutura de poder se repita em âmbito nacional – explicando porque em uma década, século, pouco foi mudado. Eleições estão próximas. Vejamos o que acontece.


Fonte fotos:

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default.jsp?uf=2&local=18&section=Geral&newsID=a2912336.xml

http://sambaquinarede2.blogspot.com/2010/06/blog-post_828.html

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Glasgow

A terceira maior cidade do reino Unido, depois de Londres e Birmingham, nao eh tao grande assim para impressionar o viajante na primeira visao. Fiquei duas noites e no primeiro dia ja eh posssivel ter uma boa ideia do tamanho cidade e do respectivo centro. Mas tambem nao eh tao pequena a ponto de dois dias bastarem para enjoar.

Ao contrario de londres, por exemplo, aqui podemos encontrar uma cultura breta (estou sem til, quer dizer, relativo a bretanha) relativamente intacta. Isso significa um ingles bastante dificil de entender. Posso estar enganado pelo raciocinio, mais pela dominacao normanda nao ter chegado a Escocia, o acento deve ter bastante do Old English, muito influenciado pelo Noruegues antigo dos Vikings. Tem horas que eles parecem estar falando alemao, qualquer coisa assim.

Tirando a lingua, sao um povo muito atencioso e dispostos a ajudar o turista. Alias, vi muito pouco dos ultimos, para nao dizer nenhum. O que eh otimo. Depois de semanas em Londres, ouvindo todo tipo de lingua, todo tipo de ingles macarronico bizarro, eh bom se sentir em um local tranquilo, com um tipo so de gente. Afinal, estou visitando UK. Se quissese gente falando indiano, chines, arabe, iria para Asia.

O que da a tonica de Glasgow eh a vida universitaria forte - tres universidades pelo que vi - e um passado industrial que resultou em uma cidade forte economicamente. Tem algumas regioes nao tao bonitas e outras lindissimas, como a da propria Glasgow University. Os Glaswegien sao mais alternativos para se vestir que os londrinos. Usam mais colorido e nao so preto em tudo. A cidade tem um vida cultural forte, com varios teatros, museus, bandas e artistas.

De peculiar, a mao-de-obra pouco qualificada eh meio escassa por aqui. Muitos servicos automatizados. Fui em um Delivery de pizza, por exemplo, que eles nao entregavam a pizza. Voce tem que fazer o pedido pelo telefone e depois ir la pessoalmente buscar. Sao Paulo poderia exportar uma tonelada de motoboys para eles. Alias, se o assunto eh velocidade, os Glawegien tambem gostam de pisar no acelerador. Cuidado redobrado ao atravessar as largas avenidas. Aqui, eles tambem dirigem na direita - so que nao tem nenhum recado amigo no chao, look right.