quarta-feira, 16 de março de 2011

O ABC do IFPR

Desde o meu ingresso no IFPR, em agosto de 2010, a incompreensão, a impotência e a angústia, foram os mais fiéis companheiros de trabalho. Na minha carreira profissional/acadêmica sempre valorizei a competência, o trabalho duro e a crença de que sempre podemos e devemos fazer melhor. Desde o começo tentei fazer o meu melhor aqui, mas as dificuldades foram muitas. Não sei se era simplesmente ignorado, não ouvido. Mas sei que da falta de um diálogo razoável resultou o sentimento de incompreensão.

A impotência foi constatada quase que concomitantemente. É normal as pessoas terem concepções diferentes. Calculei eu que, vendo os resultados do meu trabalho, um diálogo, em bases mais elevadas, poderia surgir. Foi quando percebi a ausência de meios e poderes para agir. Impotência. Privado do diálogo e do trabalho – elementos básicos do ser na condição humana – adveio, então, a angústia. A solidão na multidão.

De certa maneira, pode-se dizer que a campanha eleitoral começou em janeiro. A gestão, depois de um rápido concílio, já anunciava quem seria o seu candidato a reitor. E eu, ali naquela prisão insular de trabalho, não dei muito importância. Estava mais preocupado com minha angústia. Veio então uma voz insurgente, praticamente um grito sufocado. Não gosto da imagem por deveras piegas, mas esse grito reascendeu as esperanças.


Aos poucos, fui percebendo que mais pessoas estavam na mesma situação minha. A incompreensão foi desaparecendo. Havia colegas para conversar, para o diálogo. Então voltei a trabalhar e poder expressar meus pontos de vistas. Em um desses pontos de vista, apresento um ABC analisando a presente gestão do IFPR.

E já me adianto. Não é imparcial. É totalmente parcial. Afinal, a política é o campo em que a opinião engendra a ação subjetiva e, a última, tem reflexos coletivos. Quem não concordar, convido com intuito de esmiuçar ponto a ponto. A política também é arte de estabelecer consensos.



A – Autoritarismo

No autoritarismo, os superiores não ouvem os inferiores e centralizam as decisões e as informações. Os de cima determinam e os de baixo apenas executam. Brinca-se que no IFPR há os pensadores e a há os executores. O autoritarismo é sempre um movimento de anulação da individualidade dos inferiores. No fundo, sempre há uma fraqueza (moral, intelectual, técnica) dos superiores autoritários, os quais lançam mão de um poder externo para sustentar a relação de dominação. Superiores não autoritários são aqueles que conseguem a convergência voluntária e consciente dos inferiores. Os últimos não se vêem anulados, mas sim complementados, inseridos em uma lógica superior.

B – Burocracia

O IFPR está muito longe do ideal de uma organização burocrática. Weber definia a burocracia como a forma de poder em que a racionalidade (a técnica) impera e justamete por isso, ela seria a mais indicada para a gestão da coisa pública. Decisões balizadas pela racionalidade, embasadas em dados, estudos científicos são ainda um sonho no IFPR. Isso dá dimensão do nosso atraso, pois não conseguimos nem mesmo aplicar um modelo de organização que já está superado. Isso quando deveríamos nascer já como uma instituição modelo para o século XXI.

C – Comunicação

Os bancos da faculdade de jornalismo ensinaram-me que comunicar é tornar algo comum. Nas organizações, a comunicação tem dois momentos, um interno e outro externo. Para a análise interna da comunicação, ver os verbetes Transparência e Zumbidos. Externamente, o IFPR tem um deficiência grave comunicativa. Para constatar tal deficiência, precisamos simplesmente sair perguntando para as pessoas na rua quem sabe o que é o IFPR. Não vale conhecer a UFPR, UTFPR. Afinal, somos ou não a mesma coisa?

D – Democracia

A arte de criticar não é exercida em nenhuma âmbito do instituto. Definitivamente a democracia não é um sistema fácil de aplicar. Exige pessoas extremamentes conscientes, comprometidas e que respeitem a opinião alheia. Mas sem nenhuma dúvida, é ainda o melhor sistema de poder que humanidade já produziu. Alguém precisa avisar a presente gestão dessa novidade administrativa inventada por uns gregos aí.

E – Expansão

Feita de maneira desorganizada, não planejada e sem nenhum compromisso com a qualidade. Onde está a previsão de chegar a 15 campi no PDI? Mas dá para entender o sentido que a gestão vê nessa expansão. Ela atende à lógica do governo fazer estatísticas sobre a educação. E como a gestão está umbilicalmente ligada com pessoas passageiras no governo (e não necessariamente com Estado brasileiro), não questiona essas políticas, pois do contrário alguém poderia perder alguma boquinha no governo. Onde está o nosso ex-reitor? Onde estavam os candidatos a reitor antes?

F – Fisiologismo

Um dos mais graves problemas da administração pública brasileira tem um capítulo especial no IFPR. As escolhas aqui parecem ser feitas em base de relações pessoais, em interesses particulares, tudo no famoso tomacádálá.

G – Globalização

A presente gestão simplesmente parece que não vive no século XXI. O IFPR está à margem de qualquer parâmetro internacional de educação. Quantos alunos, professores, técnicos nossos estão no exterior? Quantos estrangeiros recebemos por ano?

H – Hipopotismo

O Fenômeno terminou a carreira em parte pelo problema de hipotiroidismo. Recebeu até mesmo uma maldosa alcunha de Gordômeno. Estava muito “grande” para poder executar seus movimentos com qualidade. Qualquer semelhança com o IFPR, é uma mera coincidência.

I – Incompetência

A incompetência advém como resultado da aplicação de certos valores (letras A, F, P, X) e pela ausência de outros (B, C, D, G, K, L, M, Q, T, U, V)

J – Justiça

Esse não é um valor que deve ser exclusivo do poder judiciário. A senso de justiça é um dos principais fatores que estão ligado ao bom desempenho e à motivação de funcionários. As regras devem ser claras para as punições e para as premiações. Se alguns se dão bem sem motivos claros para isso, não temos justiça e, portanto, temos um fator de desmotivação e improdutividade.

K – Know/how

A expressão inglesa traz dois dos três elementos necessários para a competência, definida como a junção dos saberes teóricos, práticos e das atitudes do indivíduo (conhecimentos, habilidades e atitudes). Nenhum deles sozinho é suficiente para termos a competência. Know/how, sem um compromisso ético por exemplo, é incompleto e pode ser tão ou mais perigoso para a vida organizacional quanto indivíduos com atitudes corretas mas com carências nos outros saberes. Pensemos: que tipo de gestão por competência temos no IFPR? Os professores ministram aulas nas suas áreas de competência, os gestores são escolhidos dentro do seus meios de atuação?

L – Liderança

É o problema mais grave da presente gestão, em todos os níveis organizacionais. O IFPR vive uma verdadeira crise generalizada de liderança, justamente em uma fase crítica de sua vida, em que a cultura organizacional ainda está em processo de consolidação. Nesse momento, as lideranças têm uma influência muito maior do que teriam em organizações já maduras. Daí a importância capital desse processo de eleição. Ainda é tempo de corrigir o rumo que o instituto tem tomado. É necessário uma mudança forte para iniciar a consolidação de uma nova cultura, da excelência do ensino, da qualidade, da competência. Ainda temos a chance de criar uma instituição do século XXI. No entanto, se o reitor eleito reforçar a cultura organizacional em voga, o IFPR estará entrando um círculo vicioso: lideranças sendo criadas dentro de uma cultura não de resultados e que posteriormente a reforçam. A cultura organizacional depois de consolidada é difícil mudança. Uma decisão errada nessa fase delicada da vida institucional irá ter graves consequências, pois poderemos perder a oportunidade histórica de criar uma instituição referência, com uma gestão do século XXI.

M – motivação

Para que motivar se é mais fácil mandar?

N – Natureza

Parece que a consciência de todos fica satisfeita somente com a criação de um curso de agroecologia. Isso seria suficiente. Todos os outros setores poderíam imprimir folhas à vontade, por exemplo. Nossos prédios (quer dizer, alguns não são bem nossos posto que alugados) tem projetos sustentáveis de reaproveitamento de água, economia energética? Que exemplos passamos para nossos alunos nessa área?

O – Organização

Bom senso é o melhor guia para a organização. Não é necessária nenhuma faculdade de administração para conhecê-la e praticâ-la. Portanto, qualquer pessoa pode dizer se o IFPR é ou não organizado.

P – Personalismo

Diz a lei que o IFPR deveria ser algo público, impessoal. Mas quando há setores que só podem ser designados pela pessoa que o ocupa, algo anda no mínimo mal. Isso sem falar na relação quase paternal (ou seria patriarcal) que muitos tem com o IFPR. Os historiadores podem dizer melhor do que eu em que período encontramos ótimos exemplos desse tipo de relação na gestão pública.

Q – Qualidade

Eis aí uma palavrinha que dá pano para manga. Mas ao contrário do que vemos no senso comum, é possível sim discutir qualidade em bases minimamente científica, sem confundir qualidade de gestão com gosto particular. Qualidade na gestão é padronização de serviços, pesquisa das melhores práticas em um setor específico (o famoso benchmarking), elaboração de índices. Na educação, qualidade quer dizer formar cidadões e profissionais críticos, participativos, competentes.

R – Rabo preso

Eu não tenho. Você tem?

S – Sucessão

Alguém acredita que com toda alta cúpula apoiando um determinado candidato, haverá as mudanças que são urgentes para o IFPR? Como falava no verbete sobre liderança, é muito difícil que um candidato lançado no seio da cúpula da atual gestão possa representar mudança. É um contrasenso, para não dizer uma ofensa a inteligência das pessoas. A atual cultura organizacional só existe porque existiram lideranças que até o momento assim a alimentaram.

T – Transparência

Ha mais coisas entre a cúpula da reitoria e o chão de fábrica dos campi que sonha nossa vã filosofia.

U – Unidade

Já havia tocado no assunto em artigo anterior nesse blog. Uma das consequências da falta de planejamento é a dispersão de ações. A falta de unidade. Só não confundamos a unidade fruto do consenso democrático com aquele imposta pela força.

V – Visão

Como fruto do autoritarismo, como falta de planejamento bem feito, nínguem sabe extamente o que somos e para onde iremos. A presente gestão carrega ainda os valores da escola técnica, raciocínia como um órgão intermediário. Não consegue pensar com a audácia que se espera de um órgão federal diretamente relacionado com o desenvolvimento de uma economia que pretende estar entre as quintas maiores em cinquenta anos. Estamos preparados para esse desafio?

W – 5W2H

Uma metodologiazinha de planejamento básica, mas que se fosse aplicada em todas atividades e ações do IFPR já faria uma diferença brutal. Trata-se de se fazer as seguintes perguntas para tudo o que formos fazer: o que? quem? O que? Como? Porque? Quando? Quanto? Ah, isso serve também ajuda na hora de escrever o lead do texto jornalístico.

X – Xenofobia

É o medo do que vem de fora, em oposição ao cosmopolitismo. Estamos mais próximos de qual dos dois extremos?

Y – Yes, sir.

Só para lembrá-los que aqui uns mandam, outros obedecem. (Confesso que não me veio à cabeça nenhum termo melhor)

Z - Zumbidos

É um modo de comunicação muito popular aqui no IFPR.

terça-feira, 1 de março de 2011

Porque planejam os homens

Um homem prevenido - ou planejado, como queiram - vale por dois. Como boa máxima que é, essa frase me esquece a origem no momento. Apostaria, no entanto, em um berço militar. Sim, porque, na possibilidade da arte da guerra ter nos herdado algo positivo, ela seria provavelmente as bases da ciência administrativas atuais. Na história não são poucos os exemplos de exércitos menores subjulgando outros muito maiores. Para ficar na cultura cinematográfica, poderíamos citar a clássica defesa do desfiladeiro das Termópolis, por Leônidas, e outra batalha semelhante - lutada sobre uma ponte estreita – em Stirling envolvendo escoceses e ingleses. O segundo exemplo foi recriado, como uso de toda liberdade poética possível, por Mel Gibson no filme Coração Valente.


O que esses exemplos apenas ilustram é como recursos, no caso homens, podem de fato ter seu emprego multiplicado quando há planejamento. Infelizmente no Brasil o planejamento não é lá algo muito popular. Muitos falam nele, mas poucos de fato estão familiarizados com a sua utilização. O planejamento é visto como momento de especulação abstrata inútil sobre o futuro, como simples perda de tempo. Aqui, a preferência é sempre por ir tocando as atividades e durante a execução corrigir eventuais erros. Nosso grande equívoco. O desperdício gerado pelos ajustes e erros na fase de execução são maiores que o pretenso “desperdício” de tempo da fase de planejamento. Isto é notório em qualquer relação, seja no nível pessoal, seja no social. Não é necessário experiência acadêmica para constatá-lo.


Claro que a descrença do brasileiro no planejamento não é gratuita. Estamos mais acostumados a ver exemplos de planejamentos falhos, pouco ou nada científicos, o que torna-nos ótimos descrentes. Nossa própria historiagrafia oficial prefere uma versão de uma descoberta ao acaso, de Naus “desviadas” de seu curso, a uma versão em que aqui vieram como parte de uma trajeto previamente planejado. Estamos há séculos nesse círculo vicioso: planeja-se mal, executa-se mal, culpa-se o planejamento, desacredita-se o planejamento, planeja-se ainda pior.


Metodologias de planejamento


Planejar é, em essência, a atividade de estabelecer hipóteses e cenários sobre o futuro. Quanto mais consistentes forem eles, melhor será o planejamento. Para construir cenários realísticos, a administração lança mão de diversos recursos, principalmente os de cunho científicos: teorias, metodologias de levantamento e análise de informações, opiniões de especialistas.

De posse desses cenários, começa o trabalho positivo da administração. As hipóteses e cenários são categorizadas de acordo com as probalidades de ocorrência, bem como sobre os impactos que trazem. Analisa-se o meio externo da organização. Analisa-se a disponibilidade de recursos, o atuais e as possibilidades futuras. Chega então o momento da elaboração de preposições positivas, estabelecer a identidade organizacional (missão, valores, visão), objetivos a longo prazo, estratégias, metas, planos táticos, operacionais. Enfim, toda terminologia que todos já viram em algum momento ou outro.

Planejamento no IFPR

A análise dos documentos administrativos mais importantes do IFPR (o Plano de Desenvolvimento Institucional e o Planejamento Institucional 2011) nos fazem refletir sobre como o planejamento tem sido trabalhado e concebido internamente. Todos podem fazer um teste simples para ver se o planejamento é uma realidade dentro do IFPR: o quanto do meu trabalho do dia-dia está previsto em um planejamento maior, estratégico? Quantas horas de trabalho são dedicados a pensar em minhas metas? Eu tenho clareza de como meu trabalho está sendo refletido em uma melhor educação? Meus valores pessoais e opiniões estão de acordo com o que tem sido feito? Acredito que minhas ações são as melhores para o IFPR e para a educação do Brasil?

Confronte suas opiniões com a de seus colegas. Se não houver respostas claras, se houver divergências, há grandes chances do planejamento ter falhas.

O planejamento deve fazer um homem valer por dois, como comentávamos no começo do artigo. Essa mágica é feita através dos famosos alinhamento ou convergência estratégica de recursos. Pessoas atuando na mesma direção, com os mesmo objetivos e compartilhando valores terão resultados mensuráveis, concretos, sempre melhores. Pessoas desalinhadas estrategicamente desperdiçam o esforço e o trabalho em diversas direções. Nínguem vê o fruto concreto do trabalho e o resultado é a frustração de ver o tempo e, portanto, a vida evair-se. Os anos irão passar todos e então lembraremos: o que eu fiz de útil naquele 2011?

As eleições estão aí. É o momento de questionarmos o que queremos do nosso Instituto e assumirmos corajosamente nossas opiniões.

Nota: O IFPR, onde trabalho, está em período de campanha eleitoral para a escolha do novo reitor

terça-feira, 1 de junho de 2010

O nosso democrático Estado

Espanto e, principalmente, tristeza são o que sobressai de mais uma rodada de diálogo entre Estado e sociedade em Florianópolis sobre o transporte público da capital. As cenas repetidas todos anos, de estudantes, jornalistas, tolhidos pela violência policial do direito de opinião, são sintomas inconfundíveis de que algo ainda anda muito mal em nossa sociedade. Não falo especificamente da passagem mais cara do Brasil, mas de problemas mais profundos.

Qualquer pessoa que mora em cidades com mais de 300 mil habitantes já sente na pele dois flagelos desse Brasil do terceiro milênio: violência e transporte urbano. Sob diversas faces – assaltos, má educação das pessoas, intolerância, truculência policial – a violência já é algo que há décadas incomoda o país. Não convém entrar em detalhes, posto que o assunto é, por si, autoexplicativo.

A questão do deslocamento urbano é tema urgente. Completamos meio século de indústria automobilística instalada em nosso país. Juntamente com políticas equivocadas, como descaso com transporte público, reduções de IPI, financiamento privado destinado a compra do carro próprio, chegou-se a um ponto de colapso do transporte dentro das grandes cidades. Engarrafamentos são deseconômicos sob todos pontos de vista, poluidores, e verdadeiros estorvos para quem dirige.

Não sei se a população de Florianópolis está atenta para ambos problemas. Mas parte da juventude manezinha demonstra, no entanto, desde 2003, ter percebido a conexão entre o gargalo econômico social do transporte e a evidente solução, investimento em transporte público eficaz e eficiente. Por isso, desde daquele ano vem se manifestando com menos ou mais força contra decisões públicas que apenas pioram os problemas.

Eis então que releva-se um outro problema muito mais grave. Demonstrando total ignorância, ou puro desrespeito, aos processos democráticos de diálogo social, o Estado Catarinense sistematicamente sufoca as manifestações com a elite militar que tem à disposição, as tropas do GRT (o BOPE de SC). Desproporção de força é pimenta nos olhos dos estudantes, com o perdão do mau gosto do trocadilho. Maliciosamente, confundem-se cidadãos em pleno gozo de seus direitos políticos com criminosos e baderneiros. Como somos um país violento, anestesiados, perdemos lentamente o juízo e a noção do que seja uma discussão social pacífica e democrática. Social ainda é caso de polícia.

Mas o Estado não se equivoca assim sem fortes motivos. A chave da explicação passa por Raymundo Faoro, um quase catarinense de Vacaria e que tive a felicidade lê-lo na biblioteca da Udesc, local que assistiu de camarote a ação do GRT nesse mês. No clássico Os donos do Poder, Faoro retomava o conceito de Weber sobre o estado patrimonial para explicar a política brasileira. Herança lusitana, o estado patrimonial é aquele em que uma minoria social domina o estado.

Ingênuamente, pensava que a evolução do estado brasileiro e a nossa “pujante” economia democrática tornariam tal explicação teórica cada vez mais desnecessária. Ledo e triste engano. Santa Catarina é o exemplo vivo de como o estamento político, famílias Bornhausen, Amim, Berger, se apropriam do estado e assim o utilizam contra os interesses antagônicos, mesmo quando os últimos são legítimamente populares. Só não vê quem não quer. Em nome de um situação favorável a uma elite política, retira-se violentamente do povo dois direitos de um só vez: o de opinião e de livre deslocamento pelas cidades.

Não sei se sou pessimista. Admiro amigos meus que nesse certame público já levaram bala de borracha, pimenta no olho, foram presos. Mas nessas horas fico muito descrente com um final feliz para a história. Penso que a solução passaria para uma discussão nacional, fugindo da arena política viciada dessa minha querida Santa Catarina. Mas ao mesmo tempo, temo que tal estrutura de poder se repita em âmbito nacional – explicando porque em uma década, século, pouco foi mudado. Eleições estão próximas. Vejamos o que acontece.


Fonte fotos:

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default.jsp?uf=2&local=18&section=Geral&newsID=a2912336.xml

http://sambaquinarede2.blogspot.com/2010/06/blog-post_828.html

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Glasgow

A terceira maior cidade do reino Unido, depois de Londres e Birmingham, nao eh tao grande assim para impressionar o viajante na primeira visao. Fiquei duas noites e no primeiro dia ja eh posssivel ter uma boa ideia do tamanho cidade e do respectivo centro. Mas tambem nao eh tao pequena a ponto de dois dias bastarem para enjoar.

Ao contrario de londres, por exemplo, aqui podemos encontrar uma cultura breta (estou sem til, quer dizer, relativo a bretanha) relativamente intacta. Isso significa um ingles bastante dificil de entender. Posso estar enganado pelo raciocinio, mais pela dominacao normanda nao ter chegado a Escocia, o acento deve ter bastante do Old English, muito influenciado pelo Noruegues antigo dos Vikings. Tem horas que eles parecem estar falando alemao, qualquer coisa assim.

Tirando a lingua, sao um povo muito atencioso e dispostos a ajudar o turista. Alias, vi muito pouco dos ultimos, para nao dizer nenhum. O que eh otimo. Depois de semanas em Londres, ouvindo todo tipo de lingua, todo tipo de ingles macarronico bizarro, eh bom se sentir em um local tranquilo, com um tipo so de gente. Afinal, estou visitando UK. Se quissese gente falando indiano, chines, arabe, iria para Asia.

O que da a tonica de Glasgow eh a vida universitaria forte - tres universidades pelo que vi - e um passado industrial que resultou em uma cidade forte economicamente. Tem algumas regioes nao tao bonitas e outras lindissimas, como a da propria Glasgow University. Os Glaswegien sao mais alternativos para se vestir que os londrinos. Usam mais colorido e nao so preto em tudo. A cidade tem um vida cultural forte, com varios teatros, museus, bandas e artistas.

De peculiar, a mao-de-obra pouco qualificada eh meio escassa por aqui. Muitos servicos automatizados. Fui em um Delivery de pizza, por exemplo, que eles nao entregavam a pizza. Voce tem que fazer o pedido pelo telefone e depois ir la pessoalmente buscar. Sao Paulo poderia exportar uma tonelada de motoboys para eles. Alias, se o assunto eh velocidade, os Glawegien tambem gostam de pisar no acelerador. Cuidado redobrado ao atravessar as largas avenidas. Aqui, eles tambem dirigem na direita - so que nao tem nenhum recado amigo no chao, look right.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A morte

Passei essas duas semanas tentando entender a diferenca entre o Brasil e a Europa, Inglaterra mais precisamente. Nao eh nem tanto a diferenca de idade, mas ao que essa diferenca resulta. A diferenca essencial parece ser como a morte eh encarada aqui na Europa em contraposicao ao modo brasileiro. Bem da verdade, pouco se reflete sobre a morte no Brasil. Foge-se do assunto exatamente por ser tachado como macabro, estranho. Gente feliz, de bem, nao fala sobre o assunto.

Grande equivoco. Refletir sobre ela afeta diferetamente como vivemos a vida. E na Europa, querendo ou nao, as pessoas sao obrigados a conviver e a refletir sobre a Indesejada. Peguemos o exemplo de Londres. Com mais de 2000 anos de existencia, essa cidade ja viu desgraca a dar com o pau. Comecou praticamete como um acampamento militar Romano e, desde sempre, muralhas eram necessarias pois a guerra e, portanto, a morte sempre estavam a espreita.

Depois foram todos tipos de conquistadores, Vikings, Dinamarqueses, Saxoes, Normandos. No final da idade media, quando se estabelecia como reino independente, veio a Peste Negra e matou dois tercos da populacao de Londres. Em 1666, depois de 10 anos de guerra civil, com quase 100 mil mortos na Inglaterra, veio o grande incendio de Londres. A cidade foi quase que completadamente destruida por cinco dias de fogos incontrolaveis. No seculo XX, teve a I e II Guerra, com a ultima afetando diretamente o dia-dia dos londrinos. Sim, porque a qualquer momento um V-2, os foguetes supersonicos alemaes, podiam explodir algum quarteirao da cidade do nada.

No Brasil, em compensacao, qual a nossa maior tragedia nacional? Perder para o Uruguai no Maracana em 1950? Nao quero fazer apologia a morte e a desgraca, mas isso realmente muda as pessoas. Pode ser coincidencia ou nao, mas a melhor coisa que o Brasil ofereceu ao mundo, por enquanto, eh o nosso futebol.

E como nao pensamos na morte, nao nos preparamos para ela. No Brasil, a morte sempre vem como tragedia particular e como esquecimento publico. So ver como tratamos nossos artistas mais talentosos, nossos cientistas, nossos esportistas. Nao temos herois praticamente. Isso muda como as pessoas podem se dedicar aos seus oficios. Na Europa, o seu trabalho em vida eh a maneira de se buscar alguma tipo de imortalidade. Os musicos podem se dedicar a compor a sua obra-prima, os soldados vao para guerra sabendo que o ato de heroismo nao sera totalmente em vao.

No brasil, nao. Nossa melhor estrategia para driblar a morte foi ate o momento a mesma de qualquer especie animal ameacada: reproducao em massa para ver se parcela da prole consegue sobreviver ao menos. Sou otimista, no entanto, pois acho que nos proximos anos isso va, aos poucos, mudando. Lentamente, vamos criando nossos santos, nossos genios, nossos herois nacionais.

Claro, que isso demora alguns seculos. Podemos e devemos aprender com os que vieram antes, pois seria ridiculo querer comecar do zero. Mas nao da para fazer 50 anos em 5, nao. Muito menos fazer 2000 anos em 10.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

The English Football














Eles ganham da gente em diversos aspectos da sociedade, como economia, nivel cultural, equidade social e por ai adiante. Menos no futebol. Pode ser chavao. Pode ser o jogo que assisti - Fulham x Portsmouth, mas podemos dizer ainda que nosso futebol e definitivamente o melhor do mundo.

Inclusive quanto a organizacao. Nossos estadios nao ficam nada a dever pelos que existem por ai afora. O do Fulham, por exemplo, eh um dos mais tradicionais e antigos de Londres. Claro, bem diferente dos modernosos Stanfordbridge e Emirates Stadium. Mas eh de um time intermediario e que disputa a toda poderosa Premier Legue.

Vemos que as cadeiras de madeiras, charmosas sim, mas um tanto quanto desconfortaveis e antigas continuam no estadio.

Tudo bem. O Craven Cottage e justamente charmoso pelo estilo antigo e principalmente pela localizacao belissima. O bairro de mesmo nome do time esta ha algums minutos de Londres central. Os habitantes da City tiram sarro dos moradores de Fulham. Suburbanos. Mas o bairro eh charmoso e tranquilos, com parques bonitos, alamedas arborizadas e as margens do Tamisa.

Quanto ao futebol foi um daqueles joguinhos so para torcedor gostar mesmo. Quarta feira a noite, perto dos zero negativo, chuvinha tipica inglesa e placar de 1x0 para os donos da casa. Cagada da defesa adversaria, que jogava melhor e mereceria, caso o futebol tivesse escrupulos, um empatezinho.

Claro, que para ajudar, os Ingleses sao mais civilizados e podem vender cerveja no estadios, compensando qualquer jogo feio ou o frio. So nao pode ficar na arquibancada com a bebida alcoolica. Tem que beber no bar no intervalo.


E o jogador brasileiro eh realmente incomparavel. Os ingleses sao bons sim, disciplina tatica invejavel e tecnica igual ou ate mesmo superior dos brasileiros. Mas eles sofrem de um quadradismo e uma falta de criatividade que da do. Tenho a impressao que todos times da Inglaterra jogam no 4-4-2. Entao todos jogos sao no minimo 4 linhas de quatro jogadores se movimentando em bloco. O ataque deles eh o que chamamos de chuverinho. Totalmente previsiveis.

Claro que os times nao ajudam. Os que disputam a ponta acabam compensando comprando os talentos do resto mundo. Mas, trocando em miudos. O campeonato Brasileiro e a Libertadores, se perdem para as respectivas Premier e Champions, nao eh de muito. Claro, que se os brasileiros e argentinos jogassem em seus respectivos paises, ai a comparacao nao teria nem graca.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Quem cansou de Londres, cansou da vida

Inicio o post com a frase de Samuel Johnson, responsavel pela organizacao de um dos dicionarios mais importantes da lingua inglesa. O que mais me chamou atencao da cidade eh a sobreposicao de camadas infinitas de texturas. Eles inventaram o capitalismo, a forma mais eficiente de producao de riquezas da historia da humanidade. Mas, ao contrario dos americanos, eles conseguiram equilibrar o pragmatismo com a sua milenar sociedade aristocratica. Por isso o ingles eh um figura sempre cortes, sempre inclinada ao chiste e a boa conversacao. Um dos resquicios mais fortes desse traco e a imprensa sensacionalista dos tabloides. Faz parte da tradicao deles.

Alem disso, poucas cidades no mundo podem concorrer ao cargo de capital do mundo. Ninguem aqui nunca esta completamente deslocado. Resquicios de anos administrando o maior imperio da humanidade, Haiti e Sri Lanka sao assuntos discutidos por aqui. Mesmo porque, se se comeca falar do assunto, em pouco minutos aparecera algum nativo dos respectivos paises. A diversidade aqui eh impressionante. Estas coberto de razao, Sir Samuel.